sexta-feira, outubro 22

Consumindo o nosso caráter

      
       Muitas vezes penso em nosso egoísmo, pensamos em como queremos comprar aquele carro, aquele apartamento, aquela roupa e daí o que fazemos com tudo isso? Novos desejos de compra aparecem e novamente ficamos com aquela vontade de consumir novamente...  me parece em muito que nosso caráter está sendo formado e cultuado pelo consumo. 
      A sociedade brasileira é ignorante, quando vê uma pessoa "pobre" diz que ele está nesta situação porque não quer trabalhar, porque está na comodidade, mas quantos empregos existem para uma pessoa que mora no nordeste? Ou no inflamado mercado de trabalho em São Paulo? Depois, o que é destinado para os mais "pobres" são trabalhos braçais, o que na atualidade é desvalorizado, ou seja,  quem é "pobre" é merecedor do resto, da marginalidade, já que não têm dinheiro para ser um consumidor dos novos desejos do mercado.
      Ainda, quando existem programas de redistribuição de renda com acompanhamento escolar e de saúde, os “classes altas" dizem que é um gasto sem fundamento, pois o "pobre" gastará em coisas inúteis, mas o que gastamos todos os dias com inutilidades? E  ainda mais, não vivemos no neoliberalismo, com liberdade de consumo? Para mim tais desculpas são formas de manter os "pobres" onde estão, na margem, para ser controlados por uma minoria que detêm o poder. Com isso, ainda falam de sua sujeira, seu modo de se comportar sem educação, seus poucos dentes na boca. O superficial realmente é preponderante nesta época de ilusões mercantis. 
     Agora voltemos nossos olhos para o dito "pobre", quanta exclusão existe já ao nascer, a mulher grávida vai ao posto de saúde, no qual espera filas gigantescas para poder parir, o médico já stressado com tantos atendimentos dá o tapinha na bunda do "pobre" com mais força para esvair um pouco de sua raiva matinal. O pobre cresce e vai ou não pra escola, quando não têm que ajudar a família com o trabalho,  na escola senta em carteiras que já estão pendendo para o lado, e o professor reclama de seu "fedor", mas ele não pergunta quanto o "pobre" teve que caminhar para chegar a escola. Depois disto, quando consegue concluir os estudos, vai trabalhar naquilo que aparece primeiro, até porque "pobre" não tem escolha, ou têm? Logo após constitui família, a sua mulher engravida, vai ao posto de saúde para parir, fica esperando na fila gigantesca para parir e...
     Claro que acima é um exemplo ou um recorte muito pontual de algumas realidades das maiorias de nosso país, cada família é única, com suas formações diferenciadas e futuros distintos. Mas em termos gerais o que resta ao dito "pobre" é a exclusão, a falta de respeito com aquilo que ele vive, pois se acredita que "para pobre qualquer coisa serve".
     Agora a mulher branca, heterossexual, casada, com boa formação escolar e com todos os dentes na boca, chega ao shopping e sua dúvida existencial é qual sapato combina com aquela bolsa? Mas nesse momento sua bolsa com liquido amniótico arrebenta, mas a vendedora não se importa se molhou o chão, pois ela é a melhor consumidora da loja, liga para o seu motorista particular que está no estacionamento para ajudá-la com suas compras e levá-la para o hospital particular, chegando lá o médico já está na porta esperando-a, a leva para a piscina, pois ela escolheu o parto na água, leu na terceira semana de gravidez numa revista da moda que parto na água além de ser a ultima da estação é muito confortável! O médico tira o bebê, e com carinho o faz sentir o primeiro ar que ele já respirou.
     Claro que acima é um exemplo ou um recorte muito pontual de algumas realidades das minorias de nosso país, cada família é única, com suas formações diferenciadas e futuros distintos. Mas em termos gerais o que resta ao dito "classe alta" é a inclusão, o respeito onde seja que ele irá entrar, pois se acredita que "para a classe alta somente aquilo que ele deseja é o que lhe serve".
    Que linha ou barreira separa essas duas classes? Natureza econômica, preconceito, distinção de raças? Acredito que tudo isso e mais o caráter de cada pessoa para poder se colocar no lugar do outro, e perceber um pouco da realidade do outro, o que podemos fazer com tais barreiras? Enquanto houver tais distinções entre classes teremos que conviver com raiva, violência, homicídios e falta de respeito. Nosso caráter esta sendo construído pelos ditames do consumismo e da elitizada moral na minoria consumista. Que caráter é esse que até hoje não percebe as destruições já realizadas dos sonhos de tantas pessoas, na conformidade com aquilo que é mais precioso para uma pessoa, a dignidade de ser. Onde queremos chegar? O que queremos tanto consumir?

2 comentários:

  1. Não me canso de parabenizá-lo meu caro amigo, mais uma vez nos dando o prazer, nos oferecendo a água pra saciarmos nossa sede de leitura construtiva, nos acrescentando cada vez mais sabedoria e humanidade (caráter).
    Obrigado, muito o admiro.

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  2. Muito obrigado Edson! acredito que o pensamento crítico em relação a cultura de consumo deve estar presente em nossos diálogos...

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