Foi numa noite dessas. Numa dessas noites frias que acontecem dentro de mim que percebi. Percebi que dar amor a quem não está preparado para receber é uma das maiores ofensas que se pode fazer a alguém. Oferecer luz a escuridão pode machucar ao invés de libertar. Foi pensando que aquecendo o frio de um coração machucado pela vida poderia ser acolhedor, que aprendi que o gelo sofre ao ser derretido pelo fogo. E que o que parecia ser derretimento eram na verdade lágrimas. Tamanha falta de tato oferecer abrigo a quem habituou-se receber apenas desamparo, acreditando ser o melhor que poderia ter. Isso pode soar invasivo. Corre o risco de ser sentido como agressivo. É germinar novos brotos naquela árvore seca pelo inverno que nem se sabia mais viva. E há tanto medo de crer que é possível, que pode-se não suportar até o tempo de vê-los florescer. Pois já foi mesmo há tanto tempo que se viu algo assim. É esperança demais para uma alma tão surrada. Ainda mais se enquanto faziamos amor, faziamos também poesia.
Ana Dilger
Ana Dilger

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