terça-feira, fevereiro 8

Minha redenção

           Redenção palavra que indica salvação e ou libertação. Na história da civilização colocamos a salvação indicando outro que nos salvou ou alguém que nos salvará dependendo de nossos atos no presente (pecar ou não pecar). A grande redenção gerou e ainda gera tortuosos sentimentos de culpa, pois a cobrança social e religiosa nos coloca num posicionamento de executar certas normas, normas construídas pela sociedade em que criamos e vivemos, no qual, conceitos como família, sexualidade e poder, se debatem com os conceitos de liberdade, crítica e posse.   
                Para vivermos em sobriedade com as nossas cobranças e de fato com um equilíbrio do que podemos ser perante a nós mesmo e aos outros, temos que saber até que ponto podemos agir conforme as nossas expectativas e anseios sem que prejudique a outrem. Contudo há um impedimento caracterizado pelos preconceitos diante daquilo que podemos ser, as normas religiosas e sociais ditam o que podemos e o que não podemos, normatizando o ser humano, que é tão complexo e cheio de desejos individuais.
                A religião é sim um espaço para tentarmos buscarmos aquilo que não encontramos no nosso vazio individual, serve para preencher a lacuna do inexplicável sofrimento.  Alguns encontram tal acolhimento para suas dificuldades, outros tentam se adequar para um dia se “salvarem”. Mas e aqueles que não conseguem se assemelhar as normas cultuadas pelas religiões, que não acreditam naquilo que é imposto, que se sentem discriminados por apenas não acreditar em pecado, confissões e punições por aquilo que se deseja. Qual o local dessas pessoas? Onde se buscar a redenção e acolhimento sem essas credibilidades? Como viver sem um espaço para se sentir aceito?
                Como dito antes, redenção nos remete a liberdade. A liberdade pessoal, contudo, depende muito do espaço social e cultural para expressar tal liberdade. Em culturas mais autoritárias o enquadre de normas é mais intenso. Tudo isso gera uma divisão do sujeito, por um lado temos as normas e leis, por outro temos nossos desejos e anseios, como lidar com isso? Cada pessoa tem sua maneira de lidar com suas neuroses, seja por sublimação, aceitação, negação entre outros. Isso tudo indica uma redenção pessoal, uma busca de liberdade individual e intima. “ser o que queremos ser” é mais complicado que a aparência da música. Ser é compreender quem somos o que queremos e porque queremos. Não conseguimos escapar das normas da civilização, mas podemos ser diante de nossas possibilidades. Podemos também nos sentir confortáveis diante daquilo que somos quando entendemos melhor as nossas prioridades e desejos, quando entendemos os reais motivos de nossos desejos estamos mais propensos à aceita-los e lidar melhor com as nossas escolhas.
                Portanto aqui neste parêntese sobre redenção, a liberdade acontece com o comprometimento visceral do questionamento: quem sou eu no mundo? O equilíbrio entre o socialmente aceito e a busca da felicidade pessoal se dá pela consciência das escolhas realizadas, assim se escolho seguir uma religião, tenho que me questionar, estou preparado para me enquadrar nas normas ali presentes? E isso vale para aqueles que também não conseguem seguir as doutrinas religiosas, a        pergunta se estende, posso lidar com a cobrança da sociedade por não me envolver em alguma instituição de caráter religiosa? Fica evidente então, que a liberdade aqui é extremamente pessoal!

2 comentários:

  1. não só na religião somos metaforicamente ou realmente julgados, normatizados. não é só esta instância que autoriza a nossa redenção.

    somos tolhidos quase que todo tempo, parcialmente/totalmente, quando permitimos deixar de lado o compreender-se em si e buscamos apenas o compreender-se a partir do Outro.

    saibamos, pois, visualizar e ler nossos próprios desejos, usando-nos como fonte de compreensão, assim como os outros o são. mas saibamos escolher, para não sermos engolidos pelo Outro, ao deciframos o que somos e decidir para onde iremos e o que faremos com isto!

    obrigada pela movimentação subjetiva, Ti!
    saudade!

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  2. Ótimo comentário Thaysa, realmente a normatização do ser não acontece somente pela via da religião. Mas neste texto quis focar nesta vertente, até para pensarmos na construção simbólica de pensamento, e nada mais simbólico do que as normas religiosas!
    Agradeço pelo seu acompanhamento do blog, você sempre contribuí para a dialética deste espaço!

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