sexta-feira, novembro 12

Vanessa da Mata à brasileira

Fui ver, achei que engordei alguns quilinhos.
Tentei a calça jeans que eu gostava da época da minha adolescência, ascendência, sei lá.
Saí, pensei: Sou carta fora do baralho ou essa calça jeans é de infância ou eu engravidei nos meus quadris, haver, chavê, vixe.
Eu passei por uma construção, várias sacolas na mão, um peso e um passo, um passo, um passo, um passo.
E ouvi um assovio que distraiu o peso, me mudou de lugar.
Cantada barata.
Reta sem palavra.
Passarinho bom.
Engenhosa técnica, poeminha e música.
Ele me ganhou



     Tinha receio de cultuar um ídolo, acreditava que quando temos uma obsessão por uma pessoa, além de tornarmos o sujeito em um ser onipotente, podemos perder nossa abertura para acontecimentos novos, restringindo com isso nossa visão, audição e tato. Não degustamos a delicia que são as novidades!
     Mas apareceu ela, com seus cabelos anos 60, assumindo o pixaim e elevando a música brasileira para mais um degrau, um degrau muito simples de escutar, mas de uma composição maravilhosa. Daí abandonei minha restrição e fiquei hipnotizado pelas cores sonoras de Vanessa da Mata. 

Moça de joãozinho no cabelo
Faz de conta no espelho
Faz de conta no espelho
Abre a porta e vai para o asfalto
Lisa a ponta do cabelo
Alisa a ponta do cabelo
     
     Menina de olhos grandes e voz maior ainda tem ascendência, através da avó materna, de índios Xavantes, mais brasileira impossível! Ouviu de tudo na infância. De Luiz Gonzaga a Tom Jobim, de Milton Nascimento a Orlando Silva. Ouviu também ritmos regionais, como o carimbó, dos discos trazidos das viagens de um tio à Amazônia.
     Tal mistura não poderia ter dado em outra coisa, letras que nos colocam em um estado de introspecção, mas que ao mesmo tempo nos movimentam, em uma linguagem muito singular faz-nos pensar nas coisas pequenas da vida, por muito esquecidas, colocadas num bauzinho de memórias!

Os meus desenhos herméticos
As palavras de Da Lai Lama
Quem sabe você adora
Quem sabe se transformará
Meu bauzinho de memória
Os meus livrinhos de receita
Quem sabe se sensibiliza
Quem sabe se transformará

     Amor! O amor em Vanessa é elaboração daqueles que já foram perdidos, e esperança de um próximo. Mesmo nós sabendo que a realidade amorosa é além de outras, dolorosa, com Vanessa se torna mais amenizadora, podemos novamente amar e amar...

É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

     Relembra também as pequenas formas de felicidade, aquelas que quando vivenciadas ficam lá, marcadas, esperando para serem tocadas novamente, aquele gosto de bolo de aniversário, a fruta colhida do pé, a bicicleta... E outras alegrias!

Vó dizia que era perfeição, tradição e evolução
Era o bolo que todos gostavam do Flamengo ao Corinthians
E a molecada espalhada voltava
Tinha o dom de agregar quem brigava
Traz amor em três dias, ou o seu dinheiro de volta
Simpatia contra dispersão
Rejeição, desilusão
Sete ervas dos bons caminhos
Arruda ajuda     

     É além de tudo brasileira, com sorriso aberto, pé no chão, cabelos ao vento, olhos nos olhos, empática, sensível e extremamente real!
Não me acerte, não me seque,
me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Escolha os versos para ser meu bem e não ser meu não
Reabilite o meu coração
Tentei, rasguei sua alma e pus no fogo
Não assoprei, não relutei
Os buracos que eu cavei não quis rever
Mas o amargo delas, resvalou em mim
Não deu direito de viver em paz
Estou aqui para te pedir perdão



2 comentários:

  1. Bacaninha a edição. Vanessa merece todas essas homenagens. Twitta para ela o endereço desse seu blog. Se bobear ela entra aqui e vê. Bjs

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