segunda-feira, julho 12

P.S. Eu tenho saudades!




    Porque sentimos falta de algo ou alguém? Porque investimos em pensamentos naquilo que está longe ou não existe mais? Isso é o que chamamos de saudades. Mas o que ela é? 



 Saudade é uma palavra mais presente na  língua portuguesa, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão). Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim "solitáte", solidão.
Pode-se sentir saudade de muitas coisas: de alguém falecido, de alguém que amamos e está longe ou ausente, de um amigo querido, de alguém ou algo que não vemos a muito tempo, de alguém que não conversamos, de lugares, de comidas, de situações, de um amor, e outros.
Sentir saudade é algo presente na vida das pessoas, pois a qualquer momento estamos suscetíveis a sentir a falta. O que diferencia de como expressamos este sentir saudade, está intrínseco na personalidade de cada ser e como tal sujeito lida com essa falta.
Todo ser ao nascer já sente falta do mundo materno que não está mais presente. Aquele lugar seguro, tranqüilo, e aconchegante (o útero) dá lugar agora para um universo de descobertas, de medos e receios. Buscamos com isso tal lugar em pessoas, na carreira profissional, em objetos, nos alimentos, etc. Saciar essa busca não é fácil, mas é o que nos coloca em movimento, o que nos impulsiona a buscar. Ao contrário disto, o corpo se paralisa, petrifica, não age. 
      A solidão é o sentir sozinho no mundo, é uma forma de vivenciar a falta. O patológico nisto acontece quando a pessoa se recusa (inconscientemente) a investir energia em outros objetos a não ser naquela ferida que a faz tanto sofrer.
      Por sua vez o dito “saudável” é poder sentir falta daquilo que já não está presente, ou que se perdeu, e de alguma forma continuar a vida, levando consigo lembranças, mas numa bagagem envolvida por um nó de cetim, que facilita olhar o que está lá dentro, o que se perdeu, o que se passou e ao mesmo tempo é sendo fácil novamente costurar o nó e guardar a bagagem. 
     Ainda a saudade tem o seu lado de produção, ela pode nos ajudar a perceber o que se passou em determinado tempo, o que se perdeu, e além do mais, o que posso ainda conquistar. É interessante a frase: “matar a saudade”, como se arrancássemos o sentimento do corpo e ele não existisse mais. No entanto o que se mata é o lembrar do que já se passou. Porque quando encontramos, novamente, com determinada pessoa, lugar, etc (fruto de nossa saudade), o objeto de nossa saudade já não é o mesmo, porque o tempo passou e com ele algo se modificou, mesmo que contrariamos em dizer “você está igual como antes”, isso é apenas um desejo de relembrar o que se passou. 
     A música “Chega de saudades” de composição de Tom Jobim e Vinicius retrata muito bem o sentir saudades:

Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso Mais sofrer.
Chega, de saudade
a realidade, É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...
           
     Sentir saudades assim faz-nos lembrar que somos humanos, que somos passíveis de sofrimentos, e que como cada um tem sua história, esta vai se construindo por meio de recordações, de relembrar e às vezes até de repetir, mas muitas vezes de elaborar.

Um comentário:

  1. se tudo o que somos tem a ver com o que recebemos, a todo tempo de outros (sejam presenças ou ausências) e com o que fazemos com isto, a saudade é algo que nos constitui. somos dinamicamente constituídos por gratificações - presenças - e por ônus - ausências. nos enodamos e desenodamos por intermédio deste movimento constante, e nunca deixamos, portanto, de carregar conosco as presenças-faltantes.


    somos um fragmento modificado das pessoas que um dia se fizeram presentes e se inscreveram nas histórias de nossas vidas.

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